Rio: um estado de calamidade pública (Cora Rónai)

Fonte: http://cora.blogspot.com/

Os astros deviam estar mesmo completamente desalinhados na última terça-feira, quando o mundo veio abaixo. O presidente e o governador não só estavam de passagem pelo Brasil como, ainda por cima, encontravam-se ambos no Rio. Aproveitaram para tirar da gaveta as suas caras mais compungidas, deram uma espanada e uma mão de óleo de peroba, e prontamente puseram-se a desfiar o óbvio, como se fosse súbita e espantosa revelação:

“Não é mais possível permitir que as pessoas ocupem áreas irregulares, — pontificou Lula, cujos conceitos de regularidade e irregularidade até hoje não ficaram claros. “É preciso que os administradores públicos antevejam isso.”

Concordamos todos. Teria sido muito bom para o Rio de Janeiro se o governo federal, em algum momento, tivesse antevisto isso. Talvez tivesse sido melhor ainda se tivesse destinado verba um pouco mais generosa do que o 1% dos recursos federais para a prevenção de enchentes que veio para cá.

O governador Sérgio Cabral, capaz de chorar lágrimas de crocodilo em defesa dos royalties do petróleo, não viu, porém, necessidade de tocar nessa cobrança desagradável com o visitante ilustre, e pos a culpa pelas mortes nos próprios mortos:

“Não é possível a construção irregular continuar. Se você pegar essas pessoas que morreram, quase todas estavam em áreas de risco.”

Não diga, governador! É mesmo?! Ainda bem que temos um líder dotado da sua sagacidade, capaz de identificar, com essa precisão cirúrgica, um problema que nenhum de nós jamais percebeu.

“É uma loucura, é uma irresponsabilidade!”, exclamou, ao ver – pela televisão, é claro — os desabrigados que, desesperados, tentavam salvar seus poucos pertences em meio à lama. “Essas pessoas estão cometendo quase que um suicídio!”

É provável que o governador não tenha percebido antes a loucura e a irresponsabilidade que são a construção e a existência em “áreas irregulares” porque, quando as visita, vai a caça de votos, e aí, com aquela gente toda em volta, e mais galhardetes, cartazes, artistas e seguranças, não dá para ver nada direito. Além disso, em dias de sol, a loucura e a pulsão suicida evaporam junto com a água e os demais problemas. Agora então, que as casas nas favelas vão levar umas mãos de tinta, tudo vai ficar uma beleza.

Assim como o presidente, o governador também foi enfático ao lavar as mãos e ressaltar a responsabilidade das “autoridades”. Sobrou para o prefeito Eduardo Paes, que fez a única coisa possível: deu nota abaixo de zero à cidade. Um diagnóstico perfeito, do qual não há carioca que discorde. A diferença é que ele ganha para fazer com que essa nota melhore, mas tirando o famigerado convênio com a Fundação Cacique Cobra Coral, não se tem notícia de qualquer providência de sua parte em relação a obras que poderiam aliviar o drama.

Estamos fritos.

* * *

Seria até tranquilizador ver todos os manda-chuvas (!) de acordo em relação ao absurdo que é a construção em “áreas irregulares” se, às palavras vazias, houvesse sido acrescentada alguma ação concreta em tempos secos e não-eleitoreiros.

Derrubar casas de classe média construídas em encostas perigosas é jogada demagógica para a platéia, e não resolve nada a longo prazo; derrubar casas pobres, além de não resolver nada também, é, anda por cima, politicamente incorreto, e leva à perda de votos — algo pior, para esses cínicos, do que a perda de vidas.

Acontece que, enquanto a lei não for de fato respeitada, e enquanto cada um puder fazer o que bem entender onde bem não pode, tudo continuará na mesma.

Por outro lado, não adianta ameaçar com os rigores da lei quem não tem para onde ir. Ou se trata a periferia com dignidade, cria-se um programa sólido e permanente de habitações populares e dá-se jeito no deplorável panorama dos transportes públicos da cidade, ou o Rio será, entra ano sai ano, o eterno cenário de uma tragédia anunciada.

* * *

A melhor frase sobre a calamidade que vivemos foi da leitora Luisa Maria de Sant’Anna Cardoso, publicada na seção de cartas da edição de ontem:

“O governo do Rio cumpre promessa de campanha: levar água e esgoto a todas as casas do Rio de Janeiro!”.

* * *

Há alguns (muitos) anos eu estava em Congonhas, caminhando com outros passageiros em direção ao avião que me traria de volta para o Rio, quando o sujeito que ia à minha frente, tendo terminado de ler o jornal, atirou todas as suas folhas ao vento. Tenho testemunhas: o sujeito era o cultíssimo, elegantíssimo, refinadíssimo Mario Henrique Simonsen, e até hoje não consegui esquecer o seu gesto de absoluta barbárie.

Ora, quando até um Mario Henrique Simonsen acha normal jogar um jornal inteiro (!) na pista de um aeroporto (!!!), o que se pode esperar de pessoas menos sofisticadas? É evidente que temos uma grave falha cultural em relação ao lixo; ou o governo toma providências em relação a isso, criando campanhas de conscientização permanentes e multando os porcos, ou continuaremos na mesma, pois já ficou claro que, em casa, esta educação não está funcionando.

Impossível não é. O cigarro, com todo o lobby das companhias de tabaco por trás, passou a ser mal visto; a mesma coisa se poderia fazer com o lixo, que sequer emprega marqueteiros internacionais.

Já está provado: o ser humano pode ser treinado.

* * *

Cariocas, recortem esta foto. Guardem. Os que querem emagrecer podem até colar na porta da geladeira, porque dá engulhos e tira o apetite. Mas, sobretudo, lembrem-se dela no dia das eleições. É isso que dona Dilma acha que o Rio merece.

(O Globo, Segundo Caderno, 8.4.2010)

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2 Comentários em “Rio: um estado de calamidade pública (Cora Rónai)”

  1. wagner Says:

    Bom dia.


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